Tragédia/2011: “Levamos três dias para chegar ao final do vale do Cuiabá”, jornalista Jaqueline Ribeiro

A jornalista Jaqueline Ribeiro iniciou a cobertura da tragédia de 2011 ainda de madrugada

A região serrana lembra com grande tristeza os dez anos da tragédia de 2011, que causou a morte de mais de 900 pessoas, sendo que os municípios mais atingidos foram Teresópolis, Nova Friburgo, São José do Vale do Rio e Petrópolis. Nesta matéria, prestando minha homenagem as vítimas, aos sobreviventes, profissionais e voluntários que atuaram no resgate das vítimas e dos sobreviventes, trago o relato da jornalista Jaqueline Ribeiro, que na época fez a cobertura para o jornal Tribuna de Petrópolis e para O Globo.

Nos primeiros dias da tragédia e nos meses seguintes, o papel dos profissionais de imprensa foi fundamental para levar ao mundo toda dimensão dos acontecimentos de janeiro de 2011. Assim como os problemas surgidos nos dias seguintes por conta da morosidade do poder público e a falta de transparência e seriedade dos governantes e políticos da época.

É neste cenário que os profissionais da imprensa atuam para fazer com que a informação chegue a toda sociedade e para que as vítimas sejam ouvidas pelas autoridades. Para a jornalista Jaqueline Ribeiro, um dos primeiros profissionais da cidade a iniciar a cobertura, não foi diferente.

A jornalista num dos pontos da estrada no Vale do Cuiabá / Fotos de Alexandre Carius

– Dez anos após a tragédia, ainda é difícil descrever tudo que presenciei em 2011, sobretudo na região do Vale do Cuiabá – área mais atingida na cidade, onde moravam a maior parte das vítimas fatais. A cobertura da tragédia de 2011 é o que posso considerar o maior desafio profissional que já enfrentei em campo, e o que me deu mais aprendizado.

Como colega de profissão e, na época, atuando juntos na Tribuna, lembro que todos nós nos surpreendemos quando fomos informados que Jaqueline estava fazendo a cobertura desde a madrugada e com recursos próprios tentava chegar ao local da tragédia.

– As primeiras apurações começaram ainda de casa, por volta de 1h30 da manhã quando recebi a informação de que Itaipava estava embaixo d’agua, bombeiros atuavam com botes na região e que a chuva havia arrastado casas e causado mortes na região do Berjal, no distrito da Posse – há quilômetros de distância do Vale do Cuiabá. Nas primeiras horas da manhã o cenário no local parecia irreal: um rastro de destruição que se estendeu por mais de nove quilômetros às margens dos Rios Carvão, Cuiabá e Santo Antônio.

Na época, lembro como se fosse hoje, Jaqueline e o fotógrafo Alexandre Carius chegando na redação do jornal completamente cheios de lama, com as emoções a flor da pele e relatos que surpreendia a todos. No entanto, como bons profissionais, a frente do computador as imagens e o texto iam tomando forma e descrevendo em cada linha aquilo que passou a ser considerado a maior tragédia natural do Estado do Rio.

Como revelou, o acesso era só a pé ou na carona das equipes de resgate

– Foram pelos menos uns seis meses fazendo diariamente a cobertura da tragédia e suas consequências para os moradores. Para avançar na busca por informações, caronas em retroescavadeiras que abriam caminhos, caminhonete, caminhões – tudo que pudesse nos fazer chegar ao ponto apontado por todos como o mais crítico: o final do Vale do Cuiabá. Embora desde os primeiros momentos fosse difícil imaginar uma situação mais crítica do que víamos. Sim, isso era possível… a destruição se mostrava maior a cada quilômetro avançado, relata a jornalista, lembrando que só conseguiu chegar ao ponto final, três dias depois.

Mais do que ficar transcrevendo o relato de Jaqueline Ribeiro, convido você a ler o que ela escreveu a meu pedido. Dizem que recordar é viver e, pelo relato dela, tenho a certeza da importância que os profissionais de imprensa têm para a sociedade, registrando para sempre fatos e fotos que nos entristece, nos emociona, nos forma e nos enche de orgulho.

Segue o relato de Jaqueline Ribeiro.

“Dez anos após a tragédia, ainda é difícil descrever tudo que presenciei em 2011, sobretudo na região do Vale do Cuiabá – área mais atingida na cidade, onde moravam a maior parte das vítimas fatais. A cobertura da tragédia de 2011 é o que posso considerar o maior desafio profissional que já enfrentei em campo, e o que me deu mais aprendizado também.

Superando desafios para mostrar ao mundo a dimensão da tragédia

As dificuldades para a apuração das informações eram de toda ordem: desde o acesso, por conta da quantidade de detritos que só permitia a passagem a pé – em alguns pontos apenas de carona em retroescavadeiras; a falta de comunicação, uma vez que não havia qualquer sinal para celular em toda região. Mas, a mais desafiadora missão era conseguir ao fim do dia condensar tantas informações… definir que histórias seriam contadas, pois embora unidas por uma única dor, o sofrimento de cada família era singular e indescritível.

Filtrar entre tantas histórias, quais mostraria mais claramente às autoridades e a sociedade a dimensão da tragédia para que a ajuda àqueles moradores chegasse na velocidade necessária era um desafio. E ela veio no primeiro momento em forma de doações, mas a longo prazo se arrastou embalada pela burocracia, apesar dos milhões de reais anunciados pelo poder público para obras e assistência às vítimas.

A enxurrada deixou um rastro de destruição por mais de nove quilômetros. Diferente das tragédias que infelizmente se repetem na cidade, o que se via ali não era a destruição de casa construídas em encostas e atingidas por barreiras. Ali a devastação atingiu também casas de alto padrão.

O que sobrou de muitas casas foi o telhado ou restos de paredes

A única via de acesso ao local – Estrada Ministro Salgado Filho – foi tomada pela lama, água, árvores e uma quantidade absurda de lixo verde; carros revirados e ruínas de casas completavam o cenário de caos. Era tanto entulho, que em um dos pontos uma espécie de paredão de detritos com mais de dois metros de altura fechou a estrada. A quantidade de entulho verde atochada nas janelas e portas nas poucas paredes que resistiram à enxurrada, dava ideia da violência das águas – que moradores descreviam como “um verdadeiro tsunami” que varreu a região.

O acesso era tão difícil que levamos três dias para conseguir chegar a pé ao ponto final do Vale do Cuiabá – um percurso que normalmente se faz em menos de 10 minutos de carro. No primeiro dia foram quatro horas de caminhada até chegarmos ao limite de acesso possível – uma casa de alto padrão onde 12 pessoas de uma família em férias morreram afogadas enquanto dormiam. Impossível esquecer a imagem dos copos enfileirados e cobertos por lençóis.

Foram pelos menos uns 6 meses fazendo diariamente a cobertura da tragédia e suas consequências para os moradores. Para avançar na busca por informações, caronas em retroescavadeiras que abriam caminhos, caminhonete, caminhões – tudo que pudesse nos fazer chegar ao ponto apontado por todos como o mais crítico: o final do Vale do Cuiabá. Embora desde os primeiros momentos fosse difícil imaginar uma situação mais crítica do que víamos. Sim, isso era possível… a destruição se mostrava maior a cada quilômetro avançado.

Olhando para trás, é difícil pensar no que mais me impactou desde o primeiro dia: os corpos sendo resgatados… os sobreviventes (muitas crianças), caminhando apenas com as roupas com que dormiam, muitas descalças, em meio ao lamaçal tentando escapar do que parecia um pesadelo.

A destruição era enorme em Petrópolis e em outras cidades

Eram centenas de carros lançados de ponta a cabeça por toda extensão do Rio; as ruinas das casas com poucas paredes de pé; uma vila inteira – com pelo menos 12 casas – totalmente soterradas, apenas com telhados e antenas parabólicas visíveis; um vácuo às margens da Estrada onde o terreno inteiro com outra dezena de casas foi arrancado; um condomínio com casas de classe média-alta, totalmente devastado e em ruínas, onde até piscinas desapareceram; as  casas na localidade Buraco do Sapo totalmente destruídas – uma delas arrastada inteira por alguns metros – a “casa que andou”, como diziam os moradores. Foram mais de 1.500 famílias atingidas.

Uma busca incansável por sobreviventes; a compaixão pela dor de quem perambulava pela região buscando notícias de parentes; a emoção de presenciar uma idosa de 102 resgatada com vida na pá de uma retroescavadeira – veículo que abria caminho para a passagem de viatura e na volta resgatava moradores ilhados.

Ver aquela senhora de 102 sair viva e agradecendo a Deus por ser retirada do sítio em que estava sob risco e sem acesso, foi uma lição. O funcionário de um haras que, por amor, apesar das orientações de equipes de resgate, se recusou a abandonar os animais atolados na lama dentro das baias, outro lindo exemplo de compaixão.

Minha rotina diária nas semanas que seguiram começava com uma passagem pelo  destacamento do Corpo de Bombeiros em Itaipava, onde um quadro apontava os locais onde as equipes trabalhavam simultaneamente em buscas por sobreviventes e moradores ilhados resgatados.

Foram também dias e dias acompanhando buscas ao longo de mais de 10 quilômetros de margens de rios – alguns moradores nunca mais foram encontrados. Lembro-me de 6 meses após a madrugada da tragédia, durante intervenções nas margens do Rio, a van de uma moradora que trabalhava com transporte escolar, foi encontrada soterrada. Lembro-me também de casos como de um carro com um casal, que moradores viram descer na enxurrada com faróis ligados e gritos por socorro – este nunca mais foi encontrado, assim como seus ocupantes, que também ficaram entre os desaparecidos.

As primeiras apurações começaram ainda de casa, por volta de 1h30 da manhã quando recebi a informação de que “Itaipava estava embaixo d’agua, bombeiros atuavam com botes na região e que a chuva havia arrastado casas e causado mortes na região do Berjal, no distrito da Posse – há quilômetros de distância do Vale do Cuiabá. Nas primeiras horas da manhã o cenário no local parecia irreal: um rastro de destruição que se estendeu por mais de nove quilômetros às margens dos Rios Carvão, Cuiabá e Santo Antônio.

Além da jornalista, outros profissionais da imprensa atuaram na cobertura no Vale do Cuiabá

O acesso já era difícil para a Estrada do Gentio, onde o nível da água ultrapassou dois metros dentro das casas e onde corpos de moradores do Vale do Cuiabá, arrastados pela correnteza, começaram a ser encontrados e resgatados. Dentro do rio, a quantidade de eletrodomésticos encalhados no primeiro dia sugeria que o depósito de alguma grande loja tivesse sido atingido, mas não. Eram objetos de centenas de casa que haviam sido destruídas – boa parte delas totalmente arrastadas pela força das águas. Incontável também a quantidade de carros, que como brinquedos, podia-se ver com as rodas para cima às margens do Rio – alguns deles até mesmo presos sobre o telhado de entradas de casas.

Nesta região, moradores lamentavam as perdas materiais, mas informavam que o pior havia acontecido no Vale do Cuiabá – “o Vale do Cuiabá acabou. Não tem como chegar lá” diziam.  Sendo assim, nossa missão passou a ser chegar ao ponto final do Vale do Cuiabá para que fosse possível relatar e dimensionar a tragédia – o que concluímos somente três dias depois”.

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